Em 1868, o Japão decidiu, em menos de uma geração, deixar de ser uma sociedade feudal de samurais para se tornar uma potência industrial capaz de vencer a China e depois a Rússia em guerra aberta. A Restauração Meiji não foi uma reforma gradual: foi um país inteiro sendo desmontado e remontado à força, com ferrovias e fábricas de pólvora erguidas onde antes havia arrozais e escolas de esgrima. Foi exatamente nessa fresta histórica, entre o mundo que morria e o que nascia armado, que Domenico Falco ambientou Akira: O Senhor das Armas.

Akira cresce em Hokkaido, filho de um instrutor de Jiu-Jitsu e neto de um samurai que morreu defendendo suas espadas contra o próprio governo que as tornou ilegais. Perdido numa sociedade que corria rápido demais para suas tradições, ele faz a escolha que fecha o círculo da ironia histórica: se alista no exército imperial, a mesma força que ajudou a apagar o mundo do avô.

O batismo de fogo

É nos vales gelados da Coreia, durante a Guerra Sino-Japonesa de 1894, que Akira deixa de ser um recruta qualquer. Encurralado num desfiladeiro depois que o comandante morre em combate, ele assume a liderança num impulso de desespero, avança contra as linhas inimigas e salva o próprio batalhão a um custo alto: uma bala que o deixa mancando pelo resto da vida, apoiado numa bengala que se tornaria sua marca registrada.

Condecorado como herói nacional, é enviado aos Estados Unidos para estudar metalurgia. Ele não volta querendo construir pontes. Volta querendo forjar munição.

Akira jovem e o pai ajoelhados em silêncio no dojo da família em Hokkaido, neve cobrindo o jardim lá fora
Akira jovem e o pai ajoelhados em silêncio no dojo da família em Hokkaido, neve cobrindo o jardim lá fora

Yume e a aliança do aço

Anos depois, nas docas de Tóquio, Akira comanda um complexo de galpões que abastece as campanhas expansionistas do Japão, sempre de terno preto e bengala de prata batendo no chão. Uma explosão na fábrica de pólvora reduz dezenas de operários a cinzas, e é diante da ruína do próprio império que ele conhece Yume, operária de olhar frio que não oferece lágrimas, oferece um plano: calar as famílias com dinheiro, culpar o clima pelo desastre, subornar oficiais e transferir a produção para fuzis e artilharia pesada.

Akira reconhece nela uma mente tão implacável quanto a sua. O que os une não é paixão, é a eletricidade viciante do poder e do desvio de armas para o crime organizado, financiando conflitos que os dois nunca vão precisar ver de perto.

O almoço que expõe a fratura

O ponto de maior tensão do livro não acontece num campo de batalha, acontece numa mesa de almoço em Sapporo, quando o casal visita os pais conservadores de Akira. Hayato, que sempre rejeitou a guerra, confronta o filho sobre o império bélico que ele está erguendo. Yume intervém com uma frieza cirúrgica, argumentando que um país pequeno precisa se armar para não ser subjugado, e desarma o pai com uma mistura de propaganda patriótica e a insinuação de uma gravidez.

A cena resume o livro inteiro: o poder das palavras pode ser tão letal quanto os fuzis que o casal fabrica, e cada geração acredita estar apenas se defendendo da anterior.

Mesa de almoço tensa em Sapporo, família reunida em silêncio constrangedor diante do filho bem-sucedido
Mesa de almoço tensa em Sapporo, família reunida em silêncio constrangedor diante do filho bem-sucedido

Akira e Yume constroem um império sobre os corpos e as guerras do início do século XX, mas toda tragédia grega, ou japonesa, cobra sua conta numa moeda que nenhum banco aceita. Akira: O Senhor das Armas é ficção histórica sobre o que sobra da honra quando ela vira mercadoria, e está disponível na Amazon para quem quiser descobrir o que acontece quando o próprio sangue do "Senhor das Armas" vira alvo.