Depois da queda do Terceiro Reich, milhares de oficiais nazistas escaparam da Europa por rotas que hoje têm até nome, as chamadas "ratlines", e o Brasil recebeu uma parte real desses fugitivos: Franz Stangl, comandante do campo de extermínio de Treblinka, viveu anos como operário no ABC paulista antes de ser localizado. É esse capítulo pouco confortável da história recente que Domenico Falco usa como matéria-prima para O Asilo.
No litoral fluminense de Bela Vista, o Asilo São Pedro parece o retrato da paz: idosos da alta sociedade carioca jogando cartas sob um gazebo, um casarão colonial com paredes brancas e janelas de azul descascado. Mas o casarão foi comprado em dinheiro vivo pelo Dr. Carlos com um único propósito, esquentar o lucro de cirurgias clandestinas que ele mesmo realiza para sustentar um padrão de vida que a medicina honesta nunca pagaria.
A guardiã que fecha os olhos
Para administrar esse teatro de fachadas, Carlos recruta Aurora, a enfermeira-chefe cuja compaixão dos primeiros anos de carreira secou até virar disciplina de ferro. É ela quem desvia fundos de pacientes, adultera relatórios e garante que qualquer boca grande seja silenciada com um bônus generoso. O esquema roda sem sobressaltos até o dia em que alguém precisa lidar com o hóspede do quarto número quatro.
Werner Schmidt não é como os outros residentes. Tem pouco mais de cinquenta anos, força física intimidadora e remessas mensais de dinheiro que chegam do exterior sem explicação. Sob o disfarce de paciente instável, esconde-se um ex-oficial da SS responsável pelo envio de famílias inteiras às câmaras de extermínio, refugiado no Brasil desde que escapou do julgamento em Nuremberg.

A conta que sempre chega
Todas as noites, Werner é arrastado de volta ao próprio inferno que criou, acordando suando frio com o cheiro de carne queimada e os gritos de crianças que ele condenou. Ele murmura pedidos de perdão em alemão nos corredores, uma penitência que nenhuma fuga geográfica consegue apagar.
O equilíbrio racha quando ele invade, num surto, o quarto de outra paciente. Carlos e Aurora compram o silêncio da equipe, mas o passado de Werner já havia sido rastreado por documentos e sobreviventes até chegar ao Mossad, o serviço secreto de Israel, no mesmo tipo de operação que capturou Adolf Eichmann em Buenos Aires em 1960. Agentes disfarçados de médicos se infiltram no asilo, e Carlos aceita entregar o hóspede desde que o nome da instituição saia ileso.

Quando a política apaga o crime
A captura vira escândalo internacional, arrastando o Asilo São Pedro para o centro de uma investigação de lavagem de dinheiro e conivência com criminosos de guerra. Mas o romance escolhe fechar num momento real e desconfortável da história brasileira: no dia 31 de março de 1964, o país sofre o golpe militar, as investigações cessam da noite para o dia e as fichas do asilo são trancadas em arquivos que ninguém mais consegue abrir.
O Asilo é um suspense histórico sobre o quanto a impunidade política pode enterrar, e por quanto tempo. Está disponível na Amazon para quem gosta de mistério com peso real por trás da ficção.

Conheça O Asilo
Nem todo segredo enterrado fica enterrado. Descubra os mistérios do Asilo São Pedro em O Asilo, de Domenico Falco.