Em agosto de 1969, meio milhão de pessoas convergiu para uma fazenda leiteira no estado de Nova York para o que ficaria conhecido como Woodstock, três dias de música, chuva e lama que resumiram uma década inteira de ruptura. A mesma cidade que via esse êxodo também fervia mais perto de casa: Greenwich Village e o Harlem viviam protestos por direitos civis e uma explosão de cultura jovem, enquanto a elite conservadora do Upper East Side tentava segurar a ordem tradicional. É nesse contraste que Domenico Falco ambienta Um Lugar ao Sol.

Três alunos, duas Américas

No prestigiado Instituto de Artes Cênicas Sun Shining, a professora Julie, formada no realismo visceral do cinema italiano de Rossellini e De Sica, não queria alunos decorando falas. Queria que usassem as próprias cicatrizes como matéria-prima. Em sua turma, três jovens de dezoito anos carregam o peso das duas Américas que estavam colidindo: Anne, talentosa e sufocada pelo padrasto presbiteriano que controla cada passo seu; Malcom, jovem negro do Harlem, batizado em homenagem a Malcolm X, enfrentando o preconceito racial e vivendo a própria identidade como se fosse crime numa época em que ser gay assumido custava caro; e Javier, que troca o caminho seguro desenhado pelo pai médico pelas produções de baixo orçamento do cinema independente novaiorquino.

Malcom, jovem negro de Nova York, observa a rua do Harlem ao entardecer de uma escada de incêndio, livro em mãos
Malcom, jovem negro de Nova York, observa a rua do Harlem ao entardecer de uma escada de incêndio, livro em mãos

A barreira do comportamento tradicional

Sob a orientação de Julie, o grupo derruba, aos poucos, as regras que a geração anterior dava como definitivas: as saias encurtam, o jeans vira uniforme de uma revolução silenciosa, o rock de Johnny Rivers embala noites de luz negra no Whisky a Go Go. O clímax dessa busca por liberdade vem quando Anne dubla a voz da amiga Marion numa produção musical inovadora, e o compacto estoura nas lojas. Fama instantânea, na medida exata para provar aos três que o mundo estava, de fato, mudando.

Grupo de jovens estudantes de teatro ensaiando ao ar livre no Central Park, sob a supervisão de uma professora
Grupo de jovens estudantes de teatro ensaiando ao ar livre no Central Park, sob a supervisão de uma professora

De Woodstock ao fim da inocência

Mas a década de 1970 cobra a conta que a de 1960 tinha deixado em aberto. Malcom, Marion e milhares de outros marcham sob a chuva de Woodstock, celebrando o auge do movimento hippie. Meses depois, as imagens de soldados americanos voltando do Vietnã em caixões inundam os noticiários, e Paul McCartney anuncia o fim dos Beatles, encerrando de vez a trilha sonora daquela geração. Malcom deixa a vida hippie para se juntar à linha de frente do movimento por direitos homossexuais em São Francisco, no bairro do Castro. Anne, finalmente livre do padrasto, estrela um filme independente que desafia a censura da época.

Eles conquistaram o direito de decidir sobre o próprio corpo e a própria voz. Um Lugar ao Sol não trata isso como vitória fácil: mostra o preço de cada centímetro conquistado, e o que sobra de uma amizade quando cada um segue para o seu próprio palco.

Um Lugar ao Sol é uma carta de amor à juventude, à arte e à busca por liberdade, disponível na Amazon para quem quer sentir de perto o barulho de uma geração que se recusou a herdar as regras dos pais.