Em 1721, Montesquieu inventou dois persas fictícios, Usbek e Rica, e os soltou pelas ruas de Paris só para que estranhassem tudo que os franceses achavam normal: perucas, salões, a corte de Versalhes. O truque literário do "olhar de fora" é velho, funciona porque o leitor rói a própria unha vendo o absurdo do cotidiano descrito por alguém que nunca precisou se acostumar com ele. Domenico Falco recicla esse mesmo mecanismo, só que troca a Pérsia por Marte.

Em O Marciano, um estudante da avançada e igualitária sociedade marciana atravessa um portal para fazer doutorado em relações interplanetárias na Terra. Ele não vem para invadir, nem para dominar. Vem para observar. E o que observa é uma multidão de cabeças baixas, hipnotizada por retângulos luminosos.

A burocracia da conexão

Em Marte, séculos de evolução eliminaram a necessidade de aparelhos: a comunicação acontece por telepatia, direta e sem intermediário. Ao tentar comprar um celular para entender o dialeto terrestre, o visitante esbarra numa lista que soa como piada e é rotina: RG, CPF, foto 3x4, comprovante de endereço, plano de dados escolhido entre 534 opções.

A ironia central do livro nasce aí. Construímos redes que alcançam qualquer canto do planeta e, ao mesmo tempo, erguemos barreiras de papel para que duas pessoas consigam simplesmente se falar. Um estranho de outro mundo não precisa de metáfora para enxergar isso. Ele só precisa preencher o formulário.

Multidão numa calçada urbana movimentada, cada pessoa isolada e iluminada pela luz fria do próprio celular
Multidão numa calçada urbana movimentada, cada pessoa isolada e iluminada pela luz fria do próprio celular

O Rei dos Dois Estômagos

A imersão do visitante no consumismo humano tem um clímax cômico numa lanchonete lotada, onde ele aceita o desafio do "Combo Número 10": um hambúrguer de seis camadas de carne, seis de queijo, quatro molhos e pão com oito tipos de gergelim. O prêmio para quem termina o combo é um smartphone novo.

O que a plateia não sabe é que a fisiologia marciana tem dois estômagos e trinta metros de intestino. O herói devora tudo em meia hora, vira celebridade instantânea sob os flashes de uma multidão fascinada pela aparência, e ganha seu telefone. A cena é engraçada, mas a piada é sobre nós: o quanto de espetáculo criamos em torno de recompensas pequenas.

O colossal Combo 10, hambúrguer de seis camadas, sob luzes neon e celulares filmando em uma lanchonete retrô
O colossal Combo 10, hambúrguer de seis camadas, sob luzes neon e celulares filmando em uma lanchonete retrô

Entre o Ter e o Ser

Caminhando pelas metrópoles, o visitante testemunha manifestações pacíficas ao lado da solidão de um idoso abandonado, o litoral bonito ao lado de barreiras que impedem a passagem de quem busca refúgio. Quando é assaltado e tem o próprio celular roubado, chega à conclusão do seu doutorado: na Terra as pessoas se trancam atrás de muros altos e câmeras para proteger bens, não vidas.

Falco não escreve isso como sermão. Escreve como observação de campo, o mesmo distanciamento afetuoso que Montesquieu usava com seus persas há três séculos. A diferença é a régua: aqui é uma civilização inteira que ainda troca o SER pelo TER, e um marciano de passagem que aprende, junto com o leitor, que a régua também vale para ele.

O Marciano é ficção científica com a leveza de uma comédia de costumes e o fundo filosófico que sobra na cabeça depois da última página. Se você já se pegou explicando pra alguém de fora por que as coisas "são assim mesmo", esse livro é o espelho que faltava.