Ulisses passou sete anos na ilha de Calipso. Ela lhe ofereceu imortalidade e amor eterno se ficasse. Ele escolheu voltar para casa, mesmo sabendo que casa era uma esposa envelhecendo sozinha e um mar cheio de monstros pelo caminho. A Odisseia é, entre outras coisas, a primeira grande história sobre o preço de pertencer a dois lugares ao mesmo tempo. Em O Marciano, Domenico Falco monta a mesma armadilha emocional, só que troca o Mediterrâneo por um sistema estelar inteiro.
No terceiro volume da saga, o explorador marciano chega ao planeta Tanaris, no sistema OS-QN9, dentro da galáxia Olho de Serpente. É lá que ele encontra vida inteligente pela primeira vez em suas expedições: os Brunneis, povo pacífico de pele verde-escura que vive à beira de um grande lago, ameaçado pelos vizinhos Sterilis numa disputa que a água contaminada da região transformou em guerra.
O encontro nas cinzas do conflito
Ferido num confronto entre os dois povos, o marciano acorda sob os cuidados de Bella, uma jovem Brunneis de olhos verdes e sorriso que desarma qualquer lógica científica. Durante meses de convivência na reconstrução da vila, os dois vivem uma paixão que nenhuma teoria de sua sociedade natal havia previsto, e que resulta no nascimento de uma filha.
É o tipo de virada que a ficção científica raramente arrisca: trocar a maravilha tecnológica pelo drama doméstico. Falco aposta nisso de propósito. O grande mistério do livro não é o portal interplanetário, é o que fazer quando duas vidas legítimas puxam pra direções opostas.

A escolha que Calipso nunca teve que fazer
O tempo cósmico cobra sua conta. Depois de cinco anos isolado, a equipe de exploração de Marte reata contato, e Tanaris entra em rota de colisão com astros vizinhos, fadado a um colapso inevitável. Ficar é viver o amor por Bella e pela filha sob um céu com prazo de validade. Voltar é salvar a própria vida e reencontrar a esposa e os quatro filhos que o esperam em Marte, carregando para sempre o peso de ter abandonado quem o salvou.
Na Odisseia, quem decide é Ulisses. Em Tanaris, quem decide é Bella. Num gesto que inverte a expectativa do gênero, ela convence o próprio amor a partir, preferindo vê-lo seguro no cosmos a mantê-lo preso a um mundo condenado. A generosidade dela é o verdadeiro clímax do livro, mais do que qualquer efeito especial de teletransporte poderia ser.

O eco que fica
Sete anos depois, de volta a Marte e já envelhecido pelo uso da radiação de teletransporte, o explorador tenta se readaptar à rotina pacífica ao lado da esposa. Mas, como todo Ulisses que voltou de uma guerra ou de um mundo distante, ele descobre que quem cruzou aquela fronteira não é mais a mesma pessoa que partiu. Falco fecha o volume com uma pergunta que fica: se o universo é infinito, qual é o tamanho real do nosso próprio coração?
A saga completa de O Marciano está disponível na Amazon. Se você já leu a sátira do primeiro volume e quer ver até onde o mesmo olhar de fora consegue chegar quando o assunto é amor, esse é o próximo capítulo.

Conheça O Marciano
A escolha impossível entre dois mundos está no terceiro volume da saga: continue a jornada em O Marciano, de Domenico Falco.