A Grécia entrou na Segunda Guerra Mundial resistindo ao que a Itália fascista achava que seria uma conquista fácil, e pagou por isso com uma das ocupações mais duras do continente: fome extrema, aldeias inteiras usadas como quartel-general, uma resistência armada nas montanhas que os alemães nunca conseguiram apagar de vez. É nesse cenário real que Domenico Falco ambienta A Vila, a história da família de Athena, pescadora do Peloponeso que já havia perdido uma filha para o mar antes mesmo de a guerra chegar até a porta de casa.

A ocupação e a sombra dos fuzis

Quando a Alemanha ocupa a costa grega, os filhos de Athena, Theo e Nikos, recusam o jugo dos invasores e se juntam à resistência nas montanhas, arriscando a vida em sabotagens contra a infraestrutura alemã. Enquanto isso, uma guarnição comandada pelo jovem Hans instala seu quartel-general na fábrica de conservas da própria família, o mesmo negócio que o pai da casa havia erguido com o suor dos vizinhos.

A literatura sobre a ocupação nazista costuma parar por aí: opressores de um lado, resistência do outro. Falco complica esse desenho ao fazer de Hans um homem culto, que estudou filosofia em Berlim e enxerga na Grécia a terra dos heróis que aprendeu a admirar na infância, não um território a saquear.

Nikos e Theo, armados, vigiam do alto da montanha a vila de pescadores lá embaixo
Nikos e Theo, armados, vigiam do alto da montanha a vila de pescadores lá embaixo

A paixão proibida sob as oliveiras

É sob as oliveiras centenárias da vila que Anastasia, filha de Athena, e o comandante Hans se apaixonam, um romance que a própria comunidade trataria como traição se descobrisse. Não existe cinismo na forma como Falco escreve os dois: o que os une é um fascínio mútuo que os isola, por instantes, do horror que os cerca dos dois lados.

O destino não perdoa esse tipo de contradição. Theo organiza um ataque para libertar a vila sem saber do segredo da irmã, e as forças da resistência matam Hans em combate, deixando Anastasia viúva de um amor que ela nunca pôde chorar em público. Pouco depois, descobre-se que ela está grávida.

Anastasia e Hans sentados sob as oliveiras ao entardecer, o vilarejo e o mar Egeu ao fundo
Anastasia e Hans sentados sob as oliveiras ao entardecer, o vilarejo e o mar Egeu ao fundo

O nome que cura uma casa

A comunidade recebe a gravidez com desprezo, mas Anastasia se mantém firme: aquela criança não é lembrança de guerra, é prova de que o amor resiste mesmo em tempos de ódio. Quando a menina nasce, é o avô Andreas, ainda carregando o luto da primeira Alexandra levada pelo mar, quem decide o nome da neta: Alexandra, porque a filha perdida havia voltado.

Décadas depois, a vila reconstruída ainda carrega suas sombras: Theo em silêncio com a culpa de ter matado o pai da própria sobrinha sem saber, Nikos desaparecido nas masmorras da ditadura militar que tomaria a Grécia nos anos seguintes. A Vila não é só um romance de guerra, é um estudo sobre o que uma família decide guardar e o que decide perdoar para seguir de pé.

A Vila está disponível na Amazon para quem quer ver até onde a força de Athena e de sua família consegue se erguer depois de tanta perda.