Os arqueólogos ainda discutem quantos gladiadores romanos eram de fato escravos condenados e quantos eram homens livres que escolhiam a arena por dinheiro e fama, mas os dois tipos existiram lado a lado por séculos, e a linha entre punição e carreira raramente era clara. É nessa zona cinzenta, entre a violência que Roma impunha e a violência que Roma recompensava, que Domenico Falco constrói Julius, um dos romances mais ambiciosos do autor.

O fardo herdado em Belém

A história começa antes de Julius nascer, com seu pai Marius, legionário destacado para a Judeia sob o comando de Herodes. Marius está lá quando o rei, tomado de pavor por perder o trono para um recém-nascido, ordena a execução em massa dos meninos da região, um episódio que os Evangelhos registram como a Matança dos Inocentes. Marius cumpre a ordem e nunca mais se recupera: volta a Roma destruído, afogando a culpa no vinho enquanto o pequeno Julius cresce vendo o pai ser desprezado como um bêbado fraco.

Antes de morrer, Marius entrega ao filho a espada que usou naquele dia, e Julius faz a si mesmo uma promessa silenciosa: usaria a lâmina só em causas honrosas.

Da floresta da Germânia ao Circus Maximus

Enviado para conter as tribos germânicas na fronteira do Reno, Julius cai numa emboscada e é capturado pelos homens de Armínio, forçado a lutar numa arena improvisada de terra e sangue numa aldeia bárbara. Usando a técnica que aprendeu como ferreiro, ele derrota dois guerreiros de uma vez e chama a atenção do general Lucius, que o leva para uma escola de gladiadores em Roma.

Na capital, Julius se torna um fenômeno popular, e seu momento de maior glória acontece no Circus Maximus, guiando uma quadriga até receber a coroa de louros das mãos do imperador Tibério. Ali ele conquista também o amor de Lívia, filha de seu protetor, casa-se, tem filhos gêmeos e ascende à classe dos patrícios.

Legionário romano agachado numa floresta densa e enevoada da Germânia, escudo e espada em punho
Legionário romano agachado numa floresta densa e enevoada da Germânia, escudo e espada em punho

O encontro que abala as crenças

Nomeado Tribuno, Julius volta à Judeia sob o comando de Pôncio Pilatos, com a missão de conter os ataques dos Zelotes. É lá que ouve falar de Yeshua, um pregador que reúne multidões nos vilarejos, e se mistura à população disfarçado para ouvir o que o homem tem a dizer. Em vez de um discurso de rebelião, encontra um pedido de amor e caridade mútua, e pela primeira vez algo toca um ponto intocado em sua alma calejada pela guerra.

Quando os sacerdotes forçam Pilatos a condenar Yeshua à crucificação, Julius tenta intervir alegando sua inocência, mas a máquina burocrática romana já havia decidido. A execução acontece, mas a semente da conversa ficou plantada.

Julius, em uniforme romano, encara Yeshua frente a frente numa rua de mercado na Judeia
Julius, em uniforme romano, encara Yeshua frente a frente numa rua de mercado na Judeia

As cinzas do Vesúvio

Anos depois, vivendo em conforto numa vila à beira da baía de Nápoles, Julius acredita que as batalhas ficaram no passado. No dia da erupção do Vesúvio, em 79 d.C., um dos desastres naturais mais documentados da Antiguidade, ele tem uma visão da figura de Yeshua indicando o caminho da salvação. Guiado por ela, liberta os próprios escravos e foge com Lívia para o norte, escapando por pouco das cinzas que soterrariam Pompeia e Herculano.

O choque o transforma. Já maduro, rico e inquieto, Julius percebe que os deuses romanos não bastam para explicar o que viveu, deixa a barba crescer, veste trapos de camponês e parte sozinho numa peregrinação até a Judeia, em busca dos últimos sobreviventes que testemunharam a ressurreição de Yeshua.

Julius é o romance mais ambicioso de Domenico Falco, uma jornada pela força bruta de Roma e pelo poder silencioso de uma fé nascente. Está disponível na Amazon para quem gosta de ficção histórica com peso espiritual de verdade.